terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Plano A

Posso afirmar com toda a certeza que 100% das pessoas que me conhecem apenas de vista pensam que sou "certinha". Quando elas me conhecem, apenas 1% muda de ideia.

E sou. Pelo menos até o ano passado, eu era extremamente "quadrada". Falar em sala de aula sem levantar a mão? Que isso... Não fazer a tarefa de casa? Imagine... Matar aula? Nem pensava nisso!

Aí comecei a relaxar um pouco: comecei a pensar sobre dar uma "escapadinha" da aula de Biologia, a dormir na aula de Química, a esquecer um pouco sobre os tais "planos para o futuro" que pareciam ser o propósito de estudar, e comecei a me focar apenas no presente.

Foi nessas fantasias de "fugir" da aula de Inglês à tarde que acabei me autorizando a dar esse pulinho. E como ainda tenho resquícios dos quatro ângulos retos, até fiz um pequeno cálculo, afim de não me prejudicar mais do que me beneficiar (sim, perder essa aula de inglês ia me beneficiar...).

Às tardes de Terça e Quinta-feira, tenho duas aulas de Inglês de uma hora e meia, posteriores à uma hora de almoço e divididas por um intervalo de meia hora. De Terça, a primeira aula é com um professor australiano que não toma banho, usa talco no cabelo para secar a oleosidade, e veste camisas que têm aberturas com "redezinhas" debaixo do braço (2 em 1: ventila o sovaco e repele os insetos!)... A sala inteira não o respeita, ninguém presta atenção na aula, e todos dormem ou conversam. Ou seja, a aula é um período de uma hora e meia de caos. Eu perderia alguma coisa se eu não fosse a essa aula? Talvez uma boa piada, mas isso eu ouço na próxima Terça...

A minha organização se aproximava à Perfeição! Eu perdia a primeira aula (inútil) e voltava a tempo de assistir à segunda, na qual há a troca de professores. Eu não correria o risco de meu pai chegar à escola para me buscar e eu ainda não ter retornado. Não tinha jeito de dar errado!

Depois de almoçar com minhas amigas Carol e Carmelita, que também faz essa aula de Inglês à tarde, voltamos à escola para pegar nossas mochilas. Um problema: o porteiro do colégio nos conhece e sabe que fazemos o curso de Inglês à tarde, e se nós entrássemos e ele nos visse, não nos deixaria sair da escola, pois ele sabia que estávamos em horário de aula. Foi aí que a Carol começou a conversar com o porteiro, o distraindo, dando cobertura a mim e Carmelita para entrar e sair do colégio sem problemas. Deu certo. Agradeceremos a ela amanhã.

Íamos em três: minha outra amiga, Giovi, que não faz o Inglês mas mora na esquina do colégio; Carmelita e eu. Íamos a Livraria Cultura no Conjunto Nacional, ali perto colégio. Não, não matamos aula para beber ou ir pular de para-quedas, matamos aula para ir à LIVRARIA.

Carmelita e eu fomos buscar a Giovi em seu prédio, já tendo dado um bocado de risadas. Chegando lá, sentimos o real peso das mochilas que carregávamos, então decidimos voltar novamente ao colégio para deixá-las lá.

A escola ocupa um quarteirão inteiro, e seu portão encontra-se entre as duas esquinas. A Giovi, preguiçosa, ficou esperando na esquina, enquanto eu e Carmelita nos dirigíamos ao portão. Deixamos as mochilas logo no portão, para não termos problemas com o porteiro, e retomamos o caminho de volta à esquina.

Na rua da escola há uma faixa reservada para o embarque e desembarque de alunos. Nessa hora estava mais ou menos cheia. Fomos caminhando ao longo da faixa em direção à Giovi, até que percebi um carro... peculiar.

Era um Civic. Como o de minha mãe.
Era de cor meio cinza meio bege. Como o de minha mãe.
Tinha uma placa com letras e números. Idênticos aos da placa do carro de minha mãe.

Eu já estava evitando olhar ao banco do motorista, com a esperança de que seja lá quem fosse que estivesse dirigindo um carro idêntico ao da minha mãe não fosse alguém que também tivesse a mesma cara, o mesmo nome, os mesmos filhos...!

Com as esperanças já abaladas de que ela não tinha me visto, ergo o queixo para vê-la olhando para mim,  surpreendentemente, com um sorriso no rosto. Ela abaixa a janela do carro e vou até ela.

-- Oi, Mãe... -- comecei.
-- Oi, -- ela ainda estava sorrindo -- você está matando aula?
Eu não sabia o que dizer...
-- Só hoje... -- IDIOTAA! -- vamos à livraria cultura, -- procurei amenizar a situação.
-- Você não quer ir embora já, comigo?
-- Não, não, ainda vou voltar para a segunda aula...
-- OI TIAA -- Carmelita disse...

Quais as CHANCES de, bem no dia que resolvo sair da linha, minha MÃE aparece na PORTA DO COLÉGIO para me ver o fazendo??!

Ainda não conversei direito com ela... Mas meu pai já surtou. Mas ele não surtou porque eu matei aula, não, ele disse que essa era a última de suas preocupações. Ele surtou porque eu saí sem avisá-lo...

-- Então quando você quiser matar uma aula, você liga para mim e fala: "Pai, quero matar uma aula, indo para a livraria e volto para a escola às três", TUDO BEM?!

'E preciso dizer que nada saiu como eu esperava?

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