quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A grama do vizinho

Se eu ganhasse uma moeda toda vez que eu desejasse viver em outro mundo... Bem... Nem te conto.

Não tenho nada contra o planeta Terra. Quero dizer, não gosto muito dele, mas eu consigo levar esta vida. Eu vivo em condições muito boas, em comparação com uma grande porção da população do mundo. Sou ciente disso.

No entanto, são incontáveis as vezes que eu simulo uma dimensão alternativa a esta. Não necessariamente melhor, mas diferente. Diferente em diversos aspectos. Como, por exemplo, nossos valores. Nossas prioridades, com o que nós nos preocupamos, nossa filosofia. Onde se encaixa a igualdade, aqui, no planeta Terra? É uma pena ouvir colegas de classe exclamarem "comunismo!?" se alguém menciona igualdade na sala de aula. Se todos que tivessem condições participassem do MUNDO, não haveria tantos problemas.

A cidade de São Paulo é ótimo exemplo do que quero dizer com "participar do mundo". Tem gente que pensa que comparecer de segunda a sexta no escritório de uma empresa multi-nacional das oito horas da manhã às nove horas na noite é uma participação ativa no mundo. Mas, na verdade, essas pessoas acordam de manhã em seu apartamento, entra em seu carro fechado, dirige até o escritório, onde cultiva relações sociais que não se desenvolvem com as mesmas pessoas, e lá permanece o dia todo. Que mundo é esse? Não há desenvolvimento algum nisso, não há interação com o planeta que se encontra do lado de fora da janela lacrada do escritório. Depois querem inventar a qualidade de que sua interação se realiza a partir de seu trabalho na empresa multi-nacional, que influencia o planeta... Essas pessoas estão se enganando.

"Participar do mundo" também não se realiza quando simplesmente se sai na rua. Você está, fisicamente, no meio de um espaço público, mas isso não significa nada. O livro de David Riesman chamado "A Multidão Solitária" fala disso, exatamente. Imaginem a seguinte cena: uma multidão de pessoas andando na rua. Se você estiver em um prédio em uma grande rua comercial na hora do almoço, basta olhar para baixo para fora da janela e você verá exatamente um exemplo de multidão solitária. Imaginem a Avenida Paulista ao meio dia. Aquele bando de gente se comunica? As pessoas interagem significativamente? Ou, para elas, não faria a menor diferença se estivessem sozinhas ao invés de rodeadas por outras pessoas?

Se os empregos fossem apenas meio-período, como a maioria dos colégios brasileiros, vocês conseguem imaginar o aproveitamento? Primeiro, haveria o dobro de empregos, e com o tempo livre as pessoas poderiam "participar do mundo". Trabalho de manhã e à tarde faço trabalho voluntário. De manhã ajudo alguém que o necessite e à tarde compareço ao escritório. As empresas gastariam o dobro do dinheiro apenas com empregados, o que as fariam reduzir drasticamente os gastos com excessos, como marketing invasivo. Infelizmente, múltiplas razões surgiriam ou até mesmo já existem que faria essa "estratégia" um fracasso. Seja porque as pessoas se põem em primeiro lugar, ou ficam cansadas, ou não entendem como uma ação de um indivíduo só pode ser tão importante quando se combina com as ações de tantos outros indivíduos, como ele. Muito provavelmente, as pessoas (especialmente as que precisam de dinheiro) trabalhariam em um lugar no período da manhã e em outro no período da tarde. Realmente, é pura utopia com leite condensado e chocolate granulado esperar que todas as pessoas do planeta fariam sacrifícios, por menor que seriam, em prol do próximo. Se elas estivessem dispostas a isso, elas já o fariam aos sábados, nem que seja um sábado por mês. Mas quem sou eu para falar sobre sociedade, certo? Sou apenas uma aluna do Colegial.

Dinheiro não seria o objetivo maior. Não seria um desejo. Seria apenas uma forma de obter o necessário para a sobrevivência. O luxo não seria carros esportivos, iPads, jóias e mansões. O luxo seria de quem aproveitasse a vida, de quem fosse feliz com si mesmo, quem saísse no final de semana e fosse ao parque, aproveitar o espaço aberto e sentir os raios do sol penetrando a pele. O luxo seria andar de bicicleta pela cidade, sentindo aromas e apreciando cenas, das quais seria privado se passasse pelo mesmo lugar com um carro esportivo a 150km/h. O Amor, a Paz seriam os maiores tesouros que o indivíduo poderia possuir. John Lennon e Martin Luther King Jr., por exemplo, também lutavam pela paz, pela harmonia entre as pessoas.

Os dois foram assassinados.

Eu assisto a filmes e ouço músicas e penso "por que eu não poderia viver na música?" ou "porque a vida não se revolve em torno do que é maior que assuntos pequenos, frios e fúteis? Por que a vida possui um sentido diferente nos filmes?" Talvez seja porque se nossa vida fosse como as dos filmes, ou se ela fizesse sentido e fosse harmoniosa como o arranjo de acordes e de letras de uma canção, teríamos uma perspectiva completamente diferente da vida. Não teríamos noção da grandeza da música nem ideia do valor incalculável do cinema. Talvez até pensaríamos que um mundo nem tão emocional fosse melhor. Lógico: a grama do vizinho é sempre mais verde.

Pelo menos existe a música e o cinema. Assim consigo ao menos algumas horas de fuga deste mundo.

0 comentários:

Postar um comentário