Novíssima casa. Até o cheiro da tinta das paredes ainda não se esvaiu por completo. Todos alegres, contentes, com seus novos quartos e móveis -- inclusive eu.
Hoje o marceneiro chegou às nove horas da manhã, pronto para instalar os últimos detalhes do apartamento. No meu quarto, o que tinha de ser feito era simples e relativamente rápido: um tampo, que serviria para mim como mesa de trabalho.
Uma vez terminada a instalação, meus olhos se maravilharam, assim como os de todos que viram o resultado do trabalho do marceneiro. Uma bela superfície negra, que abrangia uma parede inteira do quarto, uma espécie de madeira escura, macia. Contra-balanceava as cores claras e suaves da decoração do ambiente com uma simples e impactante matiz da cor preta; se encaixava perfeitamente no contexto, alcançando o perfeito equilíbrio de contraste.
-- Oh, Camilla! É do Cacete, hein? -- comentava meu pai, pela quinquagésima vez, completamente abismado.
-- Sim, sim! -- eu respondia, estonteada demais para responder outra coisa.
No entanto, o Destino estava prestes a jogar sujo comigo.
Saímos todos para jantar em uma pizzaria, descontraídos e despreocupados. Na volta, ao entrar em meu idílico quarto, meus olhos encontram um painel de notas encaixado ardilosamente a certa altura do tampo negro. Fui eu que tinha o posto ali, pois ainda não havia dado tempo de pregá-lo na parede.
Feliz e pacificamente, me aproximei do painel e retirei a tampa da caneta específica para aquela superfície. Comecei a escrever bobagens, esboçar desenhos dos Beatles e, me animando cada vez mais, não consegui acreditar na tamanha balde d'água fria que levei em seguida.
O painel se desencaixou.
O canto do painel se encravou na madeira negra macia do tampo recém-instalado.
Eu retirava o painel rapidamente da madeira e não queria acreditar no buraco que tinha se escavado. Eu me sentia o Rei Arthur retirando Excalibur da pedra, mas estava me enxergando como a Miss Estupidez arrancando o painel de metal do tampo de madeira.
A marca se contrastava claramente com a superfície escura, me incriminando para toda a eternidade. O pânico me atingia como uma flecha derruba a caça. Meu pai TINHA me avisado sobre tomar cuidado para não riscar o tampo, para ser cautelosa com o que eu pusesse em cima do tampo, etc etc etc... Eu nem sabia o que temer se ele visse aquilo.
Como era possível eu conseguir estragar o tampo logo no primeiro dia?! Apenas o azar se encaixa, em meu modo de ver.
Desesperada, pensei que pudesse encobrir a cicatriz com meu enorme aparelho de som.
-- Pai, meu som tá aí?
Pai confere a hora em seu relógio de pulso -- Você o quer agora?
Eu normalmente diria "Não, tudo bem, eu o pego amanhã", mas desta vez foi uma exceção de emergência.
Fui agarrando as três caixas, uma a uma, e encobrindo o canto inteiro da ponta do tampo onde ocorreu o acidente. Meu pai, preocupado com a possibilidade o aparelho RISCAR O TAMPO, cortou duas tiras de material para proteger a mesa. Direcionado ao som, quase o levantando para posicionar os protetores (e simultaneamente descobrindo a grande c*gada que fiz), eu o impedi:
-- NÃO! DEIXE QUE EU PONHO!
Meu pai, que não é burro nem nada, entendeu que havia algo de errado.
-- Me deixe ver embaixo do aparelho.
-- Você não precisa. Tem só mesa embaixo, embaixo só tem mesa, -- eu estava nervosa e nem o olhava mais no rosto.
-- Você já riscou a mesa.
Houve uma pequena pausa, -- Sim! -- respondi, miando.
Tive vontade de chorar, mas apenas nos primeiros instantes após ter confessado meu crime. Eu esperava um drama, um sermão, um berro, ao menos -- mas não houve nada.
Meu pai examinou a marca e resmungou um pouco.
-- Talvez devêssemos colocar um vidro por cima do tampo... -- comentou.
Depois, lenta e silenciosamente, caminhou até a porta, saiu e a fechou.
Estava chocada com e pacífica reação do meu pai, que geralmente resolve as coisas na base do berro. Fiquei contente por ele ter abordado meu erro fatal e mortal de maneira controlada. Entretanto, não sei como será o Amanhã: ainda serei Miss Estupidez ou serei apenas uma candidata, novamente?
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
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Merdas acontecem! rs...
ResponderExcluirTenho orgulho de tê-la perto de mim, mesmo cravando espadas em tampos negros e macios..... Amo muito você....
ResponderExcluirA-D-O-R-E-I!!!!!
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