segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Miss Estupidez

                       Novíssima casa. Até o cheiro da tinta das paredes ainda não se esvaiu por completo. Todos alegres, contentes, com seus novos quartos e móveis -- inclusive eu.
                       Hoje o marceneiro chegou às nove horas da manhã, pronto para instalar os últimos detalhes do apartamento. No meu quarto, o que tinha de ser feito era simples e relativamente rápido: um tampo, que serviria para mim como mesa de trabalho.
                       Uma vez terminada a instalação, meus olhos se maravilharam, assim como os de todos que viram  o resultado do trabalho do marceneiro. Uma bela superfície negra, que abrangia uma parede inteira do quarto, uma espécie de madeira escura, macia. Contra-balanceava as cores claras e suaves da decoração do ambiente com uma simples e impactante matiz da cor preta; se encaixava perfeitamente no contexto, alcançando o perfeito equilíbrio de contraste.

                       -- Oh, Camilla! É do Cacete, hein? -- comentava meu pai, pela quinquagésima vez, completamente abismado.
                       -- Sim, sim! -- eu respondia, estonteada demais para responder outra coisa.

                      No entanto, o Destino estava prestes a jogar sujo comigo.
                      Saímos todos para jantar em uma pizzaria, descontraídos e despreocupados. Na volta, ao entrar em meu idílico quarto, meus olhos encontram um painel de notas encaixado ardilosamente a certa altura do tampo negro. Fui eu que tinha o posto ali, pois ainda não havia dado tempo de pregá-lo na parede.
                      Feliz e pacificamente, me aproximei do painel e retirei a tampa da caneta específica para aquela superfície. Comecei a escrever bobagens, esboçar desenhos dos Beatles e, me animando cada vez mais, não consegui acreditar na tamanha balde d'água fria que levei em seguida.
                      O painel se desencaixou.
                      O canto do painel se encravou na madeira negra macia do tampo recém-instalado.
                      Eu retirava o painel rapidamente da madeira e não queria acreditar no buraco que tinha se escavado. Eu me sentia o Rei Arthur retirando Excalibur da pedra, mas estava me enxergando como a Miss Estupidez arrancando o painel de metal do tampo de madeira.
                      A marca se contrastava claramente com a superfície escura, me incriminando para toda a eternidade. O pânico me atingia como uma flecha derruba a caça. Meu pai TINHA me avisado sobre tomar cuidado para não riscar o tampo, para ser cautelosa com o que eu pusesse em cima do tampo, etc etc etc... Eu nem sabia o que temer se ele visse aquilo.
                     Como era possível eu conseguir estragar o tampo logo no primeiro dia?! Apenas o azar se encaixa, em meu modo de ver.
                      Desesperada, pensei que pudesse encobrir a cicatriz com meu enorme aparelho de som.

                      -- Pai, meu som tá aí?
                      Pai confere a hora em seu relógio de pulso -- Você o quer agora?
                      Eu normalmente diria "Não, tudo bem, eu o pego amanhã", mas desta vez foi uma exceção de emergência.
                      Fui agarrando as três caixas, uma a uma, e encobrindo o canto inteiro da ponta do tampo onde ocorreu o acidente. Meu pai, preocupado com a possibilidade o aparelho RISCAR O TAMPO, cortou duas tiras de material para proteger a mesa. Direcionado ao som, quase o levantando para posicionar os protetores (e simultaneamente descobrindo a grande c*gada que fiz), eu o impedi:

                       -- NÃO! DEIXE QUE EU PONHO!

                      Meu pai, que não é burro nem nada, entendeu que havia algo de errado.

                      -- Me deixe ver embaixo do aparelho.
                      -- Você não precisa. Tem só mesa embaixo, embaixo só tem mesa, -- eu estava nervosa e nem o olhava mais no rosto.
                      -- Você já riscou a mesa.
                      Houve uma pequena pausa, -- Sim! -- respondi, miando.

                      Tive vontade de chorar, mas apenas nos primeiros instantes após ter confessado meu crime. Eu esperava um drama, um sermão, um berro, ao menos -- mas não houve nada.
                      Meu pai examinou a marca e resmungou um pouco.
                    
                      -- Talvez devêssemos colocar um vidro por cima do tampo... -- comentou.

                      Depois, lenta e silenciosamente, caminhou até a porta, saiu e a fechou.
                      Estava chocada com e pacífica reação do meu pai, que geralmente resolve as coisas na base do berro. Fiquei contente por ele ter abordado meu erro fatal e mortal de maneira controlada. Entretanto, não sei como será o Amanhã: ainda serei Miss Estupidez ou serei apenas uma candidata, novamente?

3 comentários:

  1. Tenho orgulho de tê-la perto de mim, mesmo cravando espadas em tampos negros e macios..... Amo muito você....

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  2. Step de plantão...Dec 1, 2010 11:41 AM

    A-D-O-R-E-I!!!!!

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